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segunda-feira, 4 de maio de 2020

SANTA CRUZ - PROJETANDO O FUTURO

André lembra passado difícil, diz viver sonho no Santa Cruz e projeta: 'Quero virar ídolo aqui'

Num gesto de gratidão, André acaricia um pedaço de cimento onde está pintado o escudo do Santa Cruz (Foto: Tarciso Augusto / Esp. Dp foto)


Desde muito jovem, volante superou fome, racismo, uma casa perdida e violência na família antes de se tornar uma das maiores promessas do Tricolor


André caminha a passos lentos. Firme. Com a mão, num gesto de gratidão, acaricia um pedaço de cimento onde está pintado o escudo do Santa Cruz, time que estendeu-lhe a mão e abraçou-o como um filho. Hoje, ser titular da equipe tricolor significa que venceu as inúmeras batalhas enfrentadas pelo caminho. Entre elas, a fome e o racismo.

Cria da comunidade de Jardim São Luís, no distrito do Capão Redondo, em São Paulo, o volante do Santa Cruz, mais novo de uma família de sete irmãos, acostumou-se a ver os pais dividirem - quando existia - a pouca comida dentro de casa. Desempregados, Dona Marina e Seu Antônio viviam de bicos. “Por que esses loirinhos de olho azul vivem cheios de oportunidade na vida e eu vivo passando ‘b.o’ em casa?”, questionava.
 
“Hoje eu entendo que tudo tem um propósito, mas vai falar para uma criança de 11 anos que não vai ter comida e que é pra beber muita água para encher a barriga”, enfatizou. Em abril de 2013, no mês de seu aniversário, uma chuva torrencial assolou o Capão Redondo e destruiu a casa onde morava com a família, causando a morte das suas duas avós.

‘Você diz que acabou…’
Na rua, André catava latas para ganhar trocados. Em raras vezes, ganhava R$ 10. Restou ao futebol, então, a missão de mostrar a André que ainda valia a pena lutar - e vencer. Por influência do irmão mais velho, Robson, que havia comprado um videogame, o volante, de tanto assistir às partidas, se interessou pelo esporte.
 
E começou a assistir às peladas  do campinho perto de casa. “Antes de ir pra Igreja, eu acordava cedinho para ver os caras jogarem. Mas meu pai dizia que não queria isso para mim. Depois é que passei a olhar a vida de alguns jogadores que passaram dificuldade, ficaram ricos e ajudaram a família. Coloquei na cabeça que eu tinha que fazer isso”, lembra. 

‘Eu digo nada mudou’
De madrugada, quando os pais dormiam, André subia na laje de casa e, como podia, treinava às escondidas. Da escolinha da comunidade, migrou para o time do bairro vizinho, Vila Mariana, onde conheceu Marcos, seu professor e a quem considera um pai e mantém relações até hoje. Já adolescente, o volante decidiu contar ao pai a decisão tomada: seria jogador de futebol. Seu Antônio ficou bravo, mas um argumento de André foi suficiente para desmontá-lo: ‘se o senhor me deixar jogar, todo dia nós teremos cesta básica em casa’. 

Com o treinador Marcos, André ganhou a primeira chance como jogador em 2015. Começou no modesto AD Guarulhos. Também vestiu a camisa do Diadema e União Mogi, em 2017, até ser transferido para o Internacional, de Porto Alegre. Mas no Gigante da Beira Rio teve poucas oportunidades. 

André chegou à Cobra Coral em 2019 desacreditado, pela porta dos fundos. E, por pouco, também não saiu por ela. O volante foi envolvido como contrapeso na negociação com o então atacante Guilherme Queiroz e chegou ao Arruda sem autorização do coordenador das categorias de base, Rogério Guedes.
 
“Eu ia embora porque assinei contrato e ninguém sabia. O diretor da base não gostou e disse que se eu fosse ruim me mandaria de volta no mesmo dia. Mas fizemos um amistoso que acabou 4 a 1 e eu dei três assistências. Ele disse que eu ia ficar e hoje até fala que eu fui o melhor contrapeso da história do Santa”, relembra.

Superada a desconfiança, André cresceu. Jogou Copa do Nordeste sub-20, Brasileiro de Aspirantes e ajudou o Tricolor a ganhar a Copa Pernambuco. Na Copinha deste ano, como capitão do time, destacou-se na campanha histórica do clube, a chegar pela primeira vez à terceira fase da competição. Subiu para o profissional e garantiu a vaga de titular no meio de campo do Santa Cruz.
 
“O que o André de antes diria ao de hoje? Primeiro eu daria um abraço nele. Eu era muito carente. Era chamado de macaco e negro safado quando ia treinar. Acho que se eu recebesse um abraço, chorava. Não sabia o que era afeto. Eu era muito duro, mas valeu a pena. Se eu pudesse falar uma coisa, seria: obrigado, André, você é um neguinho ‘zika’ mesmo”, disse.

DP

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