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segunda-feira, 14 de agosto de 2023

PERFIL DO NOVO ARCEBISPO

Como pensa dom Paulo Jackson, novo arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife?

Foto: Romulo Chico/DP Foto


Nascido na Paraíba, o bispo de Garanhuns e vice-presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Paulo Jackson, toma posse, na tarde deste domingo (13), como arcebispo de Olinda e Recife. Dom Paulo substitui o posto de dom Fernando Saburido, que teve o pedido de renúncia atendido pelo Papa Francisco em junho deste ano.

Horas antes da posse, que acontece no Geraldão, no Recife, o novo arcebispo participou de uma coletiva de imprensa, respondendo sobre os direcionamentos que pretende adotar à frente da Arquidiocese e esclarecendo questões polêmicas, como as denúncias de pedofilia dentro das instituições católicas e o uso da religião para praticar violência política.

 Primeiros passos 

Dom Paulo foi breve ao contar sobre seus primeiros passos como arcebispo. 

“O primeiro passo é escutar. Escutar, escutar e escutar”.

 

Viés 

Questionado sobre a possibilidade de adotar uma postura conservadora ou progressista na cátedra, dom Paulo respondeu: “O Papa Francisco, como bom jesuíta, é um homem que tem um senso de discernimento da realidade muito profundo. Ele tenta compreender os movimentos, as noções de espírito, os sinais do tempo e aquilo o que está acontecendo ao nosso redor. (...) Os papas conservam elementos fundamentais, e estes precisam ser de fato conservados, mas a interpretação dos dogmas é dinâmica. Estes elementos perenes precisam dialogar com os desafios e realidades que vão se descortinando diante de nós”. 

Ainda sobre a linha que pretende seguir, questionado se tomará decisões em consonância com as de Dom Fernando Saburido, comentou: “A minha linha é a da igreja, a do papa Francisco e a de Jesus. É justamente esse perene conjunto de valores, como mencionei anteriormente, unidas ao diálogo com as novas realidades. Não vim substituir dom Fernando, nem dom José Cardoso, nem dom Hélder, nem dom Vital e tantos outros que vieram antes de mim e tiveram papéis fundamentais. Certamente elementos dessa rica tradição de 31 bispos antes de mim, permanecerão. Porém, os novos desafios virão.


Ações futuras 


Propondo soluções para as diversas questões dentro do papel filantrópico da igreja católica, o novo Arcebispo destacou que é preciso trabalhar em colaboração para vencer as desigualdades. “A realidade desses 20 municípios que fazem parte da Arquidiocese de Olinda e Recife contempla o diálogo com o poder público, o combate à fome e à pobreza e demais dificuldades”, ressaltou dom Paulo. 

“Morei no Córrego do Jenipapo por cerca de dois anos, há praticamente trinta anos atrás. Voltei ao local como bispo para celebrar o aniversário da Capela de São José. Encontrei realidades que tristemente eram parecidas com aquela que eu via em 1989. O mesmo esgoto a céu aberto, as mesmas lonas pretas, que são lonas da vergonha na verdade. É impensável que mesmo trinta anos depois as coisas ali ainda estejam da mesma forma. A igreja age cooperando com os poderes públicos, nesse sentido, mas também de forma profética, movimentando a luz e a força de espírito das comunidades cristãs. Então por um lado, devemos manter a tradição da Arquidiocese de Olinda e Recife. Por outro lado, reforço a importância de solucionar os desafios novos que a realidade nos oferece”, completou. 

Relação com a política 

 Questionado sobre como lidará com as prefeituras das 20 cidades que são atendidas pela Arquidiocese e com o Governo de Pernambuco, dom Paulo Jackson reforçou a postura padrão da igreja católica. “Serão relações puramente institucionais. A igreja tem uma atuação histórica no campo da filantropia e beneficência, e uma grande experiência no trabalho das pastorais sociais. É muito importante que os padres e os seminaristas que estão sendo formados, também tenham a mesma perspectiva. Não nos cabe atuar junto ao governo no sentido de fiscalização da máquina pública, mas sim no papel de instituição colaboradora e isso se dá por meio de laços institucionais e ações concretas”, pontuou.

Pessoas e igreja 

 Sobre o processo de buscar a constante aproximação e reaproximação das pessoas com a igreja católica, o arcebispo reforçou que existe uma gama distinta de pessoas, inclusive dentro do próprio catolicismo, seja por pensamento, afinidade ou nível de participação nas comunidades religiosas.


“Existem católicos bastante firmes, que têm vida eclesial e estão engajados em suas comunidades. Também temos os católicos esporádicos, que batizam os seus filhos, participam da missa dominical. Também existem os católicos nominais, ou como brincamos na igreja ‘católicos IBGE’. Hoje vemos uma gama de posturas e abordagens: agnósticos, ateus, pessoas que saíram do catolicismo para alguma denominação evangélica. Poderia me alongar citando tantas outras que não citei. Diria que o laço afetivo é fundamental: a presença qualificadora de um padre que conhece seus fiéis, exerce um papel nas famílias, cria laços. É preciso proximidade e atividades concretas que encantem e deem sentido às crianças e aos jovens”, enfatizou. 

“O vínculo comunitário, em uma realidade pós-moderna em que se exacerbou o individualismo é muito importante” -  dom Paulo Jackson.  

 

Pedofilia 

 

Perguntado sobre a onda de casos de pedofilia nas intituições católicas e as recentes denúncias envolvendo o padre Airton Freire (Arcoverde), dom Paulo Jackson classificou como sendo “de extrema importância” que as investigações sejam feitas e as punições ocorram apenas após comprovada a culpa, para evitar equívocos. “Cada bispo atua conforme a sua consciência, com mais ou menos capacidade. O papa Bento XVI percebeu que não tinha mais idade e nem força para lidar com essa temática. O papa Francisco chegou e criou um protocolo de atuação para que todos os bispos atuem, inclusive sob pena de afastamento em caso de não cumprimento. Há, nesta Arquidiocese, uma preocupação para que sejam punidos não só os sacerdotes, mas religiosos e religiosas, catequistas, ministros de eucaristia. O caminho é bastante claro: chegou um caso de denúncia? É preciso que seja feita uma investigação prévia, presidida pelo bispo. Se houver plausibilidade e verossimilhança de que possivelmente o caso é verdadeiro, é dado início ao processo judicial. Presunção de inocência é a primeira coisa: você é culpado, desde que se prove que é culpado. Infelizmente também há jovens grotescos, gente malévola e quadrilhas que estão atuando com extorsão de padres, e isto é muito triste”, pontuou.  

Trocas e monsenhores 

 

Questionado sobre eventuais mudanças e trocas dos monsenhores e auxiliares, dom Paulo Jackson brincou. “Não sou contra e nem à favor, não torcerei nem pelo Santa Cruz, nem pelo Sport e nem pelo Náutico. Sou torcedor do Fluminense (risos)”. “O princípio fundamental é conhecer. Enquanto a gente não come cinco quilos de sal juntos, não tem como definir. É preciso visitar, escutar, dialogar, entrar, conhecer e visitar. Aos poucos vamos definindo as decisões para o futuro”, concluiu.

 

Violência política 

Sobre as possíveis ações da igreja para coibir uso da fé para justificar ou cometer atos de violência política, o arcebispo foi categórico ao dizer que é “inadmissível” que haja qualquer prática de crime relacionada à igreja ou à fé cristã, defendendo a vedação de consciência individual e ressaltando o papel de neutralidade das instituições católicas. “É necessário um grande processo de reconciliação, que não significa compactuar com possíveis crimes. Famílias ficaram fraturadas, amizades, pessoas que moravam no mesmo prédio se tornaram praticamente inimigas. Até mesmo nos cleros, com confusões entre padres em algumas situações. A primeira palavra é: continuaremos a tratar dessa temática, desse grande processo de reconciliação e busca pela unidade. Outro ponto é que nós, como cidadãos, temos um papel importante na sociedade. Temos que refletir sobre as coisas que estão acontecendo ao nosso redor. Nós (a igreja) não temos uma presença político-partidária direta. Nesse sentido, foi mantida uma postura exemplar. Não direcionamos voto de absolutamente ninguém, o respeito à inviolabilidade da consciência é fundamental”, afirmou. 


“A manipulação da fé a serviço de projetos escusos, projetos político-partidários é lamentável. Quem atuou direcionando votos, manipulando consciências, utilizando a fé a serviço de partidos políticos, contribuiu um pouco para estragar o cristianismo. Não se trata de igreja a ou b, mas do cristianismo como um todo” - dom Paulo Jackson.


Por: Renan Franza

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